quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Enquanto Olhamos para Ti...

Medusa, de Bernini
Museus Capitolinos, Roma 
Por quanto tempo nossas taças de vinho ficarão cheias para fugir do rosto da Medusa que paira no fundo?

Corre na internet uma entrevista do Marcola, ao Jornal O Globo, que na realidade foi uma coluna do Arnaldo Jabor em 2006. Apesar de não pretender reproduzi-la, pergunto-me: Jabor foi profético ou, sem querer, contribuiu para a criação de um mito.

Bom, para trazer claridade para este blackout cognitivo, transcrevo um excepcional trabalho publicado na Revista Veja. 

Isto não são as elucubrações de Arnaldo Jabor acerca de um Marcola Renascentista. Muito menos a dita verdade dos Programas Policiais Matutinos e Vespertinos. 
Isto é EMPRESA: EFICÁCIA, EFETIVIDADE, PLANEJAMENTO, ORGANIZAÇÃO, EXECUÇÃO E VERIFICAÇÃO DAS METAS ESTABELECIDAS.

PCC S/A - A Gestão Empresarial do Crime Organizado

Revista Veja
Por Eduardo Gonçalves

Na madrugada do dia 10 de março de 2016, um dirigente do PCC envia um e-mail para uma de suas subordinadas com o codinome Alexandre Magno. O título da mensagem: "Projeto Estrutural 2016". Entre os anexos, um organograma (confira abaixo) com linhas e setas mostrando cinco diretorias, três núcleos de coordenação e outras dezessete células. Em outro arquivo, a descrição de cada função. Por meio da quebra de sigilo telemático, o e-mail chegou às mãos da Polícia Civil de São Paulo, que se deparou com uma verdadeira estrutura empresarial dentro da facção criminosa. Nas palavras dos investigadores, uma "multinacional do crime" que produz relatórios mensais, faz auditorias e avaliações de desempenho, gerencia seguros para os presos e paga bonificações para premiar os funcionários mais produtivos.

Esse modelo de gestão veio à tona na Operação Ethos, deflagrada pela Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo há duas semanas, e foi detalhado em um relatório com mais de 1.160 páginas, obtido com exclusividade por VEJA. Por meio de planilhas, e-mails e cartas apanhadas dentro dos presídios, o inquérito mostra a rotina de um ano da chamada célula R (chamada antes de Sintonia das Gravatas), formada essencialmente por advogados. Na última semana, a Justiça de Presidente Venceslau (SP) deferiu a prisão preventiva de 54 alvos da Operação - cinco continuam foragidos. Entre os presos estão Marcos Herbas Camacho, o Marcola, e o vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Luiz Carlos dos Santos.

Apesar de ser sustentado pelo dinheiro do narcotráfico, a célula R não se ocupa do comércio de drogas ou da morte de desafetos. São advogados de Rua ou Recursistas (daí o R) que ficam à disposição da facção para resolver problemas cotidianos. Entre as principais funções estão pagar propina a autoridades corruptas, infiltrar-se em órgãos de direitos humanos e ser o canal de comunicação entre a liderança encarcerada e os subalternos soltos. Serviços que vão muito além de fazer a defesa jurídica dos criminosos.


O CEO DO PCC


O desenvolvedor da célula R foi Valdeci Francisco Costa, um bacharel em direito e autor de livros autobiográficos que sempre se manteve longe dos holofotes – geralmente concentrados em Marcola. Após passar uma boa temporada (quase 10 anos) na Penitenciária II de Presidente Venceslau (SP), ganhou a liberdade em maio de 2015. E pisou no asfalto com uma missão — implementar uma "estrutura orgânica de feição empresarial" na facção, conforme o inquérito assinado pelo delegado Éverson Aparecido Contelli. Ele é o Alexandre Magno que mandou o e-mail citado acima. No organograma que ele mesmo fez, autodenominou-se "diretor-presidente". Na linha hierárquica, estava abaixo apenas do Conselho Deliberativo, constituído por Marcola e outros onze bandidos que tomam as decisões finais na quadrilha.

Assim como muitos integrantes, Costa atende por uma infinidade de apelidos. A maioria se refere à sua fama de “crânio” e religioso – Doutor, Notebook, Circuito Integrado, Abraão, José de Arimatéia e dr. Pedro. Numa mensagem interceptada pela polícia no Telegram, um advogado se refere a Costa como alguém "mil grau que não tem comparação o QI dele (sic)".

Apesar de a ter cumprido, sua missão durou pouco. Em junho deste ano, foi preso em uma operação do Gaeco de Campinas e hoje se encontra atrás das grades na Penitenciária de Avaré (SP). No seu lugar, entrou a advogada Juliana Queiroz (ver organograma abaixo), que também foi indiciada na Ethos, mas continua foragida da Justiça.

O Núcleo Jurídico

Na ocasião em que foi detido, o núcleo jurídico do PCC colocou em prática o protocolo fantasma, um serviço de contrainteligência que prevê o descarte de todas as mídias e a troca dos codinomes utilizados. Costa havia criado uma estrutura de células que se autogeriam. Só casos extremos chegavam a ele e, mesmo assim, eram intermediados por duas gestoras, Marcela Antunes e Anna Marques. Quando alguém era pego, a célula se desfazia, impedindo que as autoridades chegassem no topo da rede.



Com a quebra do sigilo telemático das duas intermediárias, a polícia teve acesso a planilhas (ver abaixo) que mostravam a quem se referia cada codinome. Em uma delas, os Rs eram associados a modelos de carro. Exemplo: o R1 (Marcela) correspondia ao Volkswagen Gol. E o R2 (Anna) ao Fiat Palio.
Costa sempre teve a pretensão de constituir uma ONG. Teria sido dele a ideia de eleger dois "irmãos" no Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), vinculado à Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo. O plano não deu certo e ele se viu obrigado a cooptar alguém de dentro da entidade. O escolhido foi Luiz Carlos dos Santos, que era vice-presidente, mas foi afastado do cargo após confessar que vinha recebendo uma "mesada" (de 5.000 reais) do PCC. Nas planilhas, o conselheiro aparece com o codinome “amigo da portuguesa”.

Em seu depoimento à polícia, Santos relatou que seu trabalho consistia em dar encaminhamento a denúncias formuladas por presos da facção, em sua maioria falsas. Costa lhe cobrava por resultados - e exigia que todas as informações fossem enviadas em relatórios semanais.

Em seus escritos, o diretor-presidente costuma se dizer arrependido do passado criminoso. Foi preso pela primeira vez em 2006, no ano em que o PCC se celebrizou por uma séria de ataques a forças policiais. Na época, era apontado como o encarregado das arrecadações do PCC no interior de São Paulo, em cidades como Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto, Marília e Bauru.

"As pessoas não são más, só estão perdidas. E virar as costas ou vingar-se não é a resposta. Na busca de uma solução para o problema da criminalidade, creio que uma visão pode ser substituir a vingança. Estou convencido de que há muito de estreito negativo e errado na atitude da sociedade. Em apenas punir alguém que frequentemente está em guerra consigo mesmo. Infelizmente, a tradição tem efeito de algemar o progresso", escreveu ele no livro de sua autoria chamado Rábula. A polícia apura se a editora que publicou as obras pertence a ele.

Em depoimento à Polícia Civil, Costa negou fazer parte dos quadros do PCC – o mesmo fizeram notáveis integrantes da facção, como Marcola, Antônio José Muller Júnior, o Granada, e Paulo Cesar Souza Nascimento Junior, o Neblina.

O RH e o Serviço de Atendimento ao Presidiário


Desde que foi criado, no início dos anos 90, sabe-se que o PCC mantém um estatuto com regras de comportamento a serem seguidas dentro e fora da cadeia. Na operação Ethos, os investigadores descobriram que a quadrilha também tem um sistema de bonificação e aumento gradual de salário para os integrantes da célula R como recompensa pelo “bom trabalho desenvolvido" — quase como um plano de carreira. As diretrizes foram encontradas em uma carta manuscrita e digitalizada (confira abaixo) com o título "Conjunto de Medidas Disciplinares”. Os bônus são pagos em quantias de 1.000 reais.
O texto também institui um sistema de advertências a quem cometer "faltas graves", como não responder telefonemas e e-mails, não entregar relatórios ou "não cumprir tarefas determinadas e pedidos variados feitos pelas gestoras associadas". As punições são definidas por cores: verde ("só um puxão de orelha"); amarelo (“aviso para redobrar a atenção”) e vermelho ("cobrança verbal dura e redução de honorários"). Cada cor definia um prazo de reabilitação de 6 meses, 8 meses e um ano, respectivamente.

Segundo as investigações, os advogados recebiam em torno de 1 milhão de reais por mês e não trabalhavam para clientes específicos, mas para a facção como um todo. Um e-mail recebido por Costa - e anexado ao inquérito – orienta-o a providenciar um R (advogado) para ajudar o guerrilheiro Mauricio Hernandez Norambuena, que cumpre pena pelo sequestro do publicitário Washington Olivetto em 2002. A proximidade entre Norambuena e o PCC vem de longa data. Foi ele quem ensinou táticas de terrorismo às lideranças da quadrilha, quando estava preso em Presidente Bernardes (SP), em 2006. "Nessa relação não há qualquer tipo de vínculo advogado cliente, mas sim uma relação entre advogado e organização criminosa, que recebe dinheiro proveniente do narcotráfico para atender a pessoas vinculadas ou colaboradoras da organização criminosa", diz o inquérito.

A implantação dos bloqueadores de celular nos presídios paulistas obrigou a cúpula do PCC a encontrar novas formas de comunicação com o "mundo externo". Uma delas era usar os advogados da célula R, que por meio da carteira da OAB tinham acesso fácil aos presídios e ainda contavam com o sigilo garantido à profissão. A polícia chegou a monitorar um desses momentos. Numa mensagem, um detento transmite ordens a uma das gestoras dos Rs, Anna Marques, para que levante informações sobre agentes penitenciários de Cornélio Procópio, no Paraná. O recado é datado de 17 de novembro de 2016. A suspeita é que os dados seriam usados para uma eventual execução ou para fazer ameaças. "O evento instruiu relatório de inteligência para adoção de cautelas necessárias para preservação da vida desses agentes", diz o inquérito.
Os advogados R também tinham o papel de atender às demandas dos chefões da facção e de seus familiares. Em especial, marcavam consultas médicas e procedimentos cirúrgicos para eles. Em depoimento à Polícia, o próprio Marcola diz que contatou a advogada Simone, um dos alvos da Ethos, para arranjar um médico que lhe operasse o ombro - o procedimento teria custado 27.000 reais.

Com as células em ação e organizadas, o PCC começou a pensar longe. Um dos planos era protocolar uma série de denúncias de abusos na cadeia, a maioria sem fundamento, na Organização das Nações Unidas (ONU). A finalidade era conseguir benefícios no sistema penitenciário e o fechamento do presídio de Presidente Bernardes (SP), onde os presos ficam isolados no Regime Displicinar Diferenciado (RDD). O ex-conselheiro do Condepe, Luiz Carlos dos Santos, confirmou em seu depoimento o “projeto internacional” do PCC. “Estava em curso o plano que poderia constituir, na prática, uma grande denunciação caluniosa internacional, em evidente prejuízo político e econômico ao Estado brasileiro”, diz o inquérito.

Os próximos passos da Operação Ethos se concentrarão em detectar se o PCC conseguiu replicar o modelo de gestão em células de outros Estados. Há indícios de que o mesmo esquema foi implementado em Santa Catarina e Mato Grosso. "O know how obtido pela célula “R” no Estado de São Paulo fez com que o Conselho Deliberativo [a facção] passasse a exportar esse modo de agir para outros Estados da federação, principalmente naqueles Estados sedes de presídios federais”, conclui o delegado Contelli, no texto.
O texto também institui um sistema de advertências a quem cometer "faltas graves", como não responder telefonemas e e-mails, não entregar relatórios ou "não cumprir tarefas determinadas e pedidos variados feitos pelas gestoras associadas". As punições são definidas por cores: verde ("só um puxão de orelha"); amarelo (“aviso para redobrar a atenção”) e vermelho ("cobrança verbal dura e redução de honorários"). Cada cor definia um prazo de reabilitação de 6 meses, 8 meses e um ano, respectivamente.

Segundo as investigações, os advogados recebiam em torno de 1 milhão de reais por mês e não trabalhavam para clientes específicos, mas para a facção como um todo. Um e-mail recebido por Costa - e anexado ao inquérito – orienta-o a providenciar um R (advogado) para ajudar o guerrilheiro Mauricio Hernandez Norambuena, que cumpre pena pelo sequestro do publicitário Washington Olivetto em 2002. A proximidade entre Norambuena e o PCC vem de longa data. Foi ele quem ensinou táticas de terrorismo às lideranças da quadrilha, quando estava preso em Presidente Bernardes (SP), em 2006. "Nessa relação não há qualquer tipo de vínculo advogado cliente, mas sim uma relação entre advogado e organização criminosa, que recebe dinheiro proveniente do narcotráfico para atender a pessoas vinculadas ou colaboradoras da organização criminosa", diz o inquérito.

A implantação dos bloqueadores de celular nos presídios paulistas obrigou a cúpula do PCC a encontrar novas formas de comunicação com o "mundo externo". Uma delas era usar os advogados da célula R, que por meio da carteira da OAB tinham acesso fácil aos presídios e ainda contavam com o sigilo garantido à profissão. A polícia chegou a monitorar um desses momentos. Numa mensagem, um detento transmite ordens a uma das gestoras dos Rs, Anna Marques, para que levante informações sobre agentes penitenciários de Cornélio Procópio, no Paraná. O recado é datado de 17 de novembro de 2016. A suspeita é que os dados seriam usados para uma eventual execução ou para fazer ameaças. "O evento instruiu relatório de inteligência para adoção de cautelas necessárias para preservação da vida desses agentes", diz o inquérito.

Como diria meu amigo, Edson, o Lobão: "C'est la vie, meu rei".

sábado, 9 de julho de 2016


Ordem e (o atraso do) Progresso
Ler o texto de Braulio Tavares, indicado pelo querido Márcio Roberto Soares Ferreira Júnior, levou-me a divagar e imaginar os custos sociais da nossa sub-cidadania. Daqueles que não dispõem de privilégios ou, tampouco, das garantias do Estado democrático. Os de "habitus" precário como define Jessé Souza. Isto fez-me associar a uma imagem, que circula na internet, da escultura do dinamarquês Jens Galschiot. A opulência e o imobilismo "gorduroso" de uma Justiça custeada, - "carregada" -, por cidadãos famélicos de comida e de direitos.


A cor do seu ódio

Ontem, presenciei, no trânsito, uma demonstração vexatória de racismo. Sentir a dor do outro, o gosto amargo, a boca seca, o estômago embrulhado, fez-me reconhecer a alteridade como o único denominador comum do ser humano, nossa diversidade. Fez-me lembrar autores como Susan Sontag, Gadamer e Lévinas, apresentados pelos meus mestres Mauro Guilherme Pinheiro Koury e Simone Carneiro Maldonado. A construção social da identidade racial é um determinismo que independe de quaisquer rejeições lógica ou biológica. O racista busca uma afirmação a partir de um argumento falacioso. Alheio ao teor e descompasso do seu discurso com a realidade, cria um bode expiatório a justificar a suposta mácula que corrompe a sociedade. Em países miscigenados, como o Brasil, tal fenômeno pauta um teatro do absurdo. Supor uma pureza genética seria risível se não fosse trágico. Além de uma impossibilidade formal, tem-se uma fragilidade conteudística. Acalmo-me com John Donne e sua busca por um encontro de horizontes. Por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti.

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".

Meditações VII, John Donne

domingo, 26 de junho de 2016

Viver em berço esplêndido com o universo a conspirar. 
Quando ouça estas platitudes, procuro o mentecapto capaz de produzir tais afirmações. Porém, surpreso fico ao identificar aqueles que acolhem estes textos. Imaginar que a felicidade é um pote guardado no final do arco-íris é o serviço que os clichês, frases feitas e estigmas promovem.
A banalidade deste argumento não despertaria meu interesse. Entretanto, no meu gabinete acolho inúmeros estudantes que expressam suas angústias por não serem um Pangloss moderno, onde “todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis”.
Esperar um estado de felicidade pleno é desconsiderar a perecibilidade do corpo, a força da natureza e o outro que eu não controlo. O acaso, o imprevisto, o acidental são partes integrantes da nossa vida. Como afirma António Machado: "Caminhante, são teus rastos o caminho, e nada mais; caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar". A injustiça na obrigação ou direito à felicidade não deriva da inexistência desta, mas da sua imprevisibilidade, fugacidade.
Parafraseando Gil:
"Nem ficar tão apaixonada pela felicidade, que nada
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim".
Sempre considerei injusta a obrigação ou direito à felicidade. Ora, trata-se de um argumento frágil. Com um pouco de raciocínio lógico, é possível entender a inviabilidade em mensurá-la. Pior ainda, o que significa alcançá-la? Viver em berço esplêndido, entorpecido. A inglória deste "Dever-Ser" impõe-se a jovens que perdem a esperança no caminho por não suportar o fardo da cobrança.

Edísio Ferreira F Jr

God Save the Marianne
Hoje, deparei-me com inúmeras postagens relativas a um comentário de Roberto Rachewsky à foto em capta um encontro da rainha da Inglaterra com a prefeita de Paris. Tentei localizar o seu texto e o contexto da imagem, mas São Google deve ter imprensado os festejos juninos.
Bom, o que salta aos olhos é uma nonagenária aristocrata inglesa carregando sua sombrinha e uma altiva descendente de Marianne, retratada por Delacroix, seguida por um lacaio que empunha o seu guarda-chuva.
Ora, esta fotografia é descritiva de como as democracias ocidentais encontram-se em uma encruzilhada. Não trato de maneira pueril o retrato da rainha, há vários contextos que ultrapassam este recorte e fogem aos saudosistas de um Downton Abbey nos trópicos. Trato da socialista e primeira mulher a ocupar a prefeitura de Paris.
Inúmeros e diferentes autores como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, José Murilo de Carvalho, Florestan Fernandes, Wanderley Guilherme dos Santos, Jesse Souza, dentre tantos outros, alertavam e alertam que o sistema de privilégios, destinado aos representantes populares, contraíram um alheamento dos seus representados. Desaprenderam a girar a maçaneta de uma porta.
A burocratização da classe política e o surgimento dos políticos de carreira, - cancro encontrado nas democracias ocidentais -, e que,  como o padre Manuel da Costa predizia, remete a sua suposta frase: "Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões." Ou então:
"(...) eles tratam, no poder, não de atender as necessidades da população, não de lhes resolver os problemas vitais, mas de enriquecerem e firmarem a situação dos seus descendentes colaterais. Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos de Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República." (Os Bruzundangas, de Lima Barreto)
Este distanciamento não é exclusivo do nosso país ou das terras de Jean-Christophe Mitterrand, basta acessar os noticiários em diversos países e verificar a promiscuidade entre os cadernos de política e polícia.
A democracia tem, em uma mundo complexo e em rede, um grande desafio, que seus líderes atentem e correspondam aos interesses de uma diversidade cultural de votantes.
Despojar-se da pompa, circunstância e ineficiência, retomando de forma eficaz sua legitimidade, talvez tenha um marco simbólico. Como? Se eu soubesse...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ver e Rever

O documentário Ilha das Flores representa um momento especial na produção nacional. Seu roteiro estabelece, de maneira inusual, uma cadeia de informações que aparenta um texto em cacos. Intencionalmente, Jorge Furtado, diretor e roteirista, expõe a um espectador, habituado a uma cultura imagética representada pelo videoclipe, o fio condutor da trama desenvolvida. A coragem em ficar na fronteira e arriscar, demonstra, já naquela época, 1989, o domínio do autor que impede que a platéia se perca em um labirinto de imagens. Ainda, conta como ponto positivo a narração feita pelo ator Paulo José. Com conhecido domínio interpretativo, sua voz não apenas informa, mas permite o tempo necessário para reflexão. Ilha das Flores é a expressão da nossa herança e permanência da desigualdade social e modernização seletiva. Curtam o vídeo com uma boa panela de pipoca.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Mestre

Filho de mãe solteira, uma doméstica imigrante portuguesa, com pai desconhecido, Florestan Fernandes é o maior expoente da sociologia brasileira. Nascido em 22 de julho de 1920, teve uma infância pobre com condições degradantes de trabalho. De engraxate até garçom, Florestan abandonou os estudos no curso primário. Aos dezessete anos retorna através do curso de madureza, correspondente atual ao supletivo. Daí em diante, ingressa no curso de Ciências Sociais na USP; torna-se mestre em antropologia; doutor em sociologia; livre-docente e catedrático em Sociologia I da FFCL/USP; Visiting Scholar das universidades de Colúmbia e Yale; professor, além da USP, das Universidades de Toronto (Canadá) e PUC-SP; deputado federal constituinte em 1986, reeleito em 1990; Doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra e autor de mais de cinquenta livros.
O documentário Florestan Fernandes - O Mestre é um sensível relato da história de vida de um sobrevivente do povo que construiu sua trajetória e, ironia do destino, sucumbiu a erros dos serviços públicos de saúde. Acessem: http://www.youtube.com/watch?v=BVIsapkW4RE