Viver em berço esplêndido com o universo a conspirar.
Quando ouça estas platitudes, procuro o mentecapto capaz de produzir tais afirmações. Porém, surpreso fico ao identificar aqueles que acolhem estes textos. Imaginar que a felicidade é um pote guardado no final do arco-íris é o serviço que os clichês, frases feitas e estigmas promovem.
A banalidade deste argumento não despertaria meu interesse. Entretanto, no meu gabinete acolho inúmeros estudantes que expressam suas angústias por não serem um Pangloss moderno, onde “todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis”.
Esperar um estado de felicidade pleno é desconsiderar a perecibilidade do corpo, a força da natureza e o outro que eu não controlo. O acaso, o imprevisto, o acidental são partes integrantes da nossa vida. Como afirma António Machado: "Caminhante, são teus rastos o caminho, e nada mais; caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar". A injustiça na obrigação ou direito à felicidade não deriva da inexistência desta, mas da sua imprevisibilidade, fugacidade.
Parafraseando Gil:
"Nem ficar tão apaixonada pela felicidade, que nada
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim".
Sempre considerei injusta a obrigação ou direito à felicidade. Ora, trata-se de um argumento frágil. Com um pouco de raciocínio lógico, é possível entender a inviabilidade em mensurá-la. Pior ainda, o que significa alcançá-la? Viver em berço esplêndido, entorpecido. A inglória deste "Dever-Ser" impõe-se a jovens que perdem a esperança no caminho por não suportar o fardo da cobrança.
Edísio Ferreira F Jr
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