sábado, 9 de julho de 2016


Ordem e (o atraso do) Progresso
Ler o texto de Braulio Tavares, indicado pelo querido Márcio Roberto Soares Ferreira Júnior, levou-me a divagar e imaginar os custos sociais da nossa sub-cidadania. Daqueles que não dispõem de privilégios ou, tampouco, das garantias do Estado democrático. Os de "habitus" precário como define Jessé Souza. Isto fez-me associar a uma imagem, que circula na internet, da escultura do dinamarquês Jens Galschiot. A opulência e o imobilismo "gorduroso" de uma Justiça custeada, - "carregada" -, por cidadãos famélicos de comida e de direitos.


A cor do seu ódio

Ontem, presenciei, no trânsito, uma demonstração vexatória de racismo. Sentir a dor do outro, o gosto amargo, a boca seca, o estômago embrulhado, fez-me reconhecer a alteridade como o único denominador comum do ser humano, nossa diversidade. Fez-me lembrar autores como Susan Sontag, Gadamer e Lévinas, apresentados pelos meus mestres Mauro Guilherme Pinheiro Koury e Simone Carneiro Maldonado. A construção social da identidade racial é um determinismo que independe de quaisquer rejeições lógica ou biológica. O racista busca uma afirmação a partir de um argumento falacioso. Alheio ao teor e descompasso do seu discurso com a realidade, cria um bode expiatório a justificar a suposta mácula que corrompe a sociedade. Em países miscigenados, como o Brasil, tal fenômeno pauta um teatro do absurdo. Supor uma pureza genética seria risível se não fosse trágico. Além de uma impossibilidade formal, tem-se uma fragilidade conteudística. Acalmo-me com John Donne e sua busca por um encontro de horizontes. Por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti.

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".

Meditações VII, John Donne